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Da Janela do Céu Vejo o Outro Lado do Morro

Cartaz do espetáculo

Da janela do Céu Vejo o Outro Lado do Morro

Em 2013, partindo do anseio de registrar e debater a inércia cultural cotidiana de algumas regiões periféricas da Cidade de São Paulo, o Coletivo Anônimo e Atuadores inicia o projeto "PONTO DE PARTIDA: O resgate da memória da ascensão ao Morro", que propõe um resgate afetivo e cultural da cidade, com o intuito primeiro de despertar no público uma relação de pertencimento com esta, e passar a enxerga-la como espaço de enfrentamento e de possibilidades outras de ação. Acreditando que a atmosfera artística é um caminho adequado para estabelecer este pacto com a comunidade, colocamos o teatro, arte essencialmente política e de grande potência dialética, como fenômeno instaurador e disparador deste trabalho. Entretanto, como qualquer modalidade artística, o teatro não pode e não deve se reduzir a mero instrumento de formação ou a serviço de qualquer causa que seja. Segundo Gramsci: "a arte é educadora enquanto arte. E não enquanto arte-educadora", e como tal deve ser praticada e discutida nesta esfera.

Por isso, acreditando que o teatro contemporâneo precisa transcender o seu espaço de ação para que seja capaz de dialogar com as multiplicidades e polifonias de nosso tempo, insistimos na pesquisa da hibridização cênica, ou seja, o entrecruzamento de linguagens que quando sobrepostas umas às outras chegam a uma formula artística que foge do engavetamento classificatório ocidental. Dessa forma, propõe-se produzir uma obra de arte que não se define enquanto teatro, enquanto música, enquanto circo, enquanto performance, etc., mas que se define enquanto arte e expressão. Uma obra que deixa de ser mero evento para se tornar espaço de resistência, que convida o público a tomar parte e ser atuador dentro e fora da obra. Instigamos produzir um trabalho metamórfico recheado de camadas de compreensão e que seja alterado a todo o tempo pela ação conjunta dos espectadores e atuadores, que aqui pactuam em um ritual de arte e política em busca da ação, do movimento, da efemeridade e da revolução.

Em 2014, o projeto é contemplado pelo programa VAI e materializa o espetáculo "Da Janela do CEU Vejo o Outro Lado do Morro" que conta a história da construção do bairro do Jardim Paraná, na Brasilândia;

Jardim Paraná é um bairro relativamente novo de São Paulo, com apenas 20 anos de existência, localizado na região norte da cidade, aos pés da serra da Cantareira. O bairro surgiu a partir de uma favela criada após a invasão de uma área de proteção ambiental nas extremidades do Jardim Damasceno.

Com o aumento da população, a comunidade passou a se organizar em uma Associação de Moradores que conseguiu, entre outras coisas, a vinda legalizada da energia elétrica, do saneamento básico e do asfalto. Após o reconhecimento do bairro pela prefeitura, foi levantada a necessidade de uma escola de educação fundamental e então foi inaugurado o CEU Paz na gestão da prefeita Marta Suplicy. Nesta época também o bairro passou a ser atendido pela linha de ônibus 9032 (Jd. Damasceno - Terminal Cachoeirinha).

Com a presença de novas invasões na área, o bairro continua crescendo descontroladamente e, a presença de novos moradores somada aos conflitos entres os moradores antigos, fez com que a associação perdesse parte de sua força e influência.

Além disso, o ritmo e as atividades rotineiras cotidianas dos habitantes locais, somada a dificuldade de acesso à região (as ruas são muito estreitas e desniveladas, o que possibilita que apenas um micro-ônibus circule por toda a região), inibem o acesso ao fazer e apreciar artístico, assim como não fomentam ou despertam seu interesse.

O Coletivo Anônimo de Atuadores propõe esta reflexão no espaço artístico, confrontando arte e documento, ficção e realidade, num espaço híbrido onde as artes se integram para eclodir em um espaço de resistência. Propõe-se aqui um TERRORISMO POÉTICO, que envereda pelos interesses do povo. Uma viagem pelas vicissitudes da memória, do espaço, das relações.

Inspirado no texto Veredas da Salvação de Jorge Andrade e fundamentado pela extensa obra do sociólogo Zygmunt Bauman, o espetáculo convida os espectadores a uma viagem real pela favela, direcionando olhares, desnudando paradoxos, discutindo as contradições sociais. A experiência com o fenômeno cênico faz do espectador protagonista da obra, que pode nesta re-significar seu espaço, seu tempo, sua dramaturgia.

Dessa forma o espaço cênico vira local de debate prático, de conflito, de ação. Ação esta que traz à tona as potências do momento efêmero com uma forte reflexão social e política do mundo, do indivíduo, da periferia, da diferença.

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