
O Grupo





O Coletivo Anônimo de Atuadores vem desenvolvendo projetos com extremo rigor técnico e de grande qualidade autoral e estética ao longo de sua trajetória. Fundado no início de 2010, na época sediado no Jaraguá/SP, pelo ator, pesquisador e diretor artístico Murilo Gaulês, o Coletivo atua nas periferias da Cidade de São Paulo com uma pesquisa séria e aprofundada sobre a dramaturgia do espaço e os atravessamentos do espectador na obra de arte contemporânea, realizando oficinas, workshops, debates, intervenções, performances e apresentações de espetáculos abertos à comunidade como forma efetiva de democratizar o acesso à arte e dar pertencimento a esta dos meios de produção artística em contexto de resistência.
Com uma pesquisa direcionada ao trabalho do ator e a construção de um "espaço penetrável" (espaço este que, com a intervenção do espectador torna-se local de debate/confronto da realidade social, individual e efêmera em posição de resistência), no final do ano de 2011 (primeiras investigações) na EMEF Brigadeiro Henrique Raymundo Dyott Fontenelle, é encenado o espetáculo de teatro-experiência "Sonhos de Uma Noite no Sertão" – livre adaptação de Sonho de Uma Noite de Verão de William Shakespeare. Com este trabalho o Coletivo inicia uma primeira materialidade cênica que compila e registra suas investigações estéticas, a partir do qual este passa a se debruçar sobre, iniciando um ciclo de inquietações artístico-sociais que o caracteriza e o fortalece enquanto identidade.
A partir de janeiro de 2012, como desdobramento destas mesmas inquietações, inicia o projeto de Formação de Público e Reflexão Atoral, aberto e gratuito a todos interessados. Foram realizadas intervenções e oficinas nas ruas e praças do bairro do Jaraguá, abrindo um compartilhamento crítico e reflexivo de nossa prática cênica com a comunidade do entorno, ampliando possibilidades e levando acesso e pertencimento aos meios de produção de arte para um grande número de pessoas da comunidade. Essas primeiras provocações deram origem ao ousado projeto "I Virada Teatral" que, com a ajuda de artistas parceiros e empenho da comunidade ofereceu, na EMEF Brigadeiro Henrique Raymundo Dyott Fontenelle (sede do Coletivo até 2013) uma programação de mais de 24 horas com apresentações de espetáculos, oficinas, rodas de discussões e performances. As obras apresentadas foram produzidas pela própria comunidade em um trabalho de formação compartilhado pelo Coletivo e por artistas e grupos parceiros convidados que abrilhantaram a programação. As rodas de discussão desta edição tiveram como eixo temático "Teatro e Educação – Um aprofundamento sobre as artes cênicas, o corpo e a aprendizagem" e tiveram como colaboradores convidados a Profª Ms. Cíntia Abreu (ECA/USP), Profª Andrea Fraga (EMIA), Profª Ms. Liliana Olivan (ECA/USP) e Profª Ms Camila Tardelli (FFLCH/USP).
Levando a finco os objetivos da pesquisa, em 2012, o Coletivo estréia o espetáculo "Cinderela ou o Sapatinho Encarnado no Pé de Caju", trabalho que fora encenado pelo Coletivo na Estação de Trem do Jaraguá – São Paulo/SP, potencializando o mergulho na pesquisa sobre o espaço penetrável e verticalizando a ocupação de locais públicos praticado pelo grupo. Nesta versão do conto de Perrault, discutimos os padrões de beleza impostos por uma estética eurocentrada, assim como o lugar em que a mulher é colocada desde a infância por meio da construção coletiva de uma Cinderela negra, feminista e politizada. Este trabalho circulou também nas cidades de Guarulhos/SP, além de participar do Festival de Arte Acadêmica da Faculdade Paulista de Artes.
Em 2013, sempre nutrido pelo trabalho de grupo – efetua-se a "II Virada Teatral" desta vez no CEU Pêra Marmelo (Jaraguá), que contava com outra rodada intensa de programação teatral gratuita e aberta para a comunidade. Para sua execução esta edição contou com a parceria do ator Ms. Rodolfo Lima (Unicamp) e a atriz, bailarina e fisioterapeuta Telma Lázaro, em debates sobre o tema "Produzindo Teatro na Margem: As dificuldades e potências do Teatro Amador".
Ainda em 2013, seguindo a trajetória de investigações, o grupo inicia uma pesquisa sobre Bertold Brecht e seu Teatro Dialético, desenvolvendo um método de leitura da cena teatral contemporânea que partia do cruzamento entre a reflexão social abarcada pelo teatrólogo e as fricções biopolíticas da performance artivista. Neste entremeio o grupo encontra com a pesquisadora argentina Laura Brauer, especialista no método brechtiano e formada pela Berliner Ensemble (Berlim/Alemanha). O estudo do método torna-se uma formação para o Coletivo que perdura por todo o ano e que é compartilhado com os alunos da EMEF Fontenelle (Jaraguá) em formato de oficinas e intervenções experimentais.
Essa investigação fundamenta e resulta em registros teóricos e práticos a fim de estruturar a metodologia de pensamento e criação do grupo. Neste procedimento propõe-se a investigação de nossos processos criativos gerando, a partir disso, um importante registro dos trabalhos desenvolvidos pelo Coletivo Anônimo de Atuadores e um disparador para novas possibilidades e aprofundamentos fomentado por esses novos e estimulantes norteadores.
A partir daí, o Coletivo Anônimo de Atuadores iniciou o trabalho de pesquisa intitulado: Ponto de Partida – De onde e para onde vamos? , adaptação livremente inspirada no texto de Gianfrancesco Guarnieri que denuncia os acontecimentos em torno da morte do jornalista Vladimir Herzog em 1975. Fundamentado nos desdobramentos da pesquisa identitária de um teatro legitimamente nacional em seu fazer, este trabalho vem para solidificar o processo colaborativo como modo de criação do grupo. Mais do que isso, aponta um avanço em sua pesquisa continuada: o processo de construção em work-in-progress, onde o Coletivo se propõe a desnudar seu processo para a cidade e fazê-la um convite de intervir diretamente em suas escolhas de encenação antes, durante e depois da fruição do fenômeno artístico. Tal processo contribui duplamente na propagação de um método convidativo de formação de público e desenvolvimento de olhar artístico para a construção de um espetáculo cênico que comunique anseios reais do público.
Este trabalho reverberou em um Work in Progress itinerante que levou o grupo a conhecer a região do Jardim Paraná/Brasilândia. Neste período, o Coletivo parte para um processo de investigação sobre suas práticas efetivadas até o período, a fim de aprofundar e rever sua metodologia de encenação própria e observar as angústias presentes em sua trajetória.
Em 2014, o Coletivo é contemplado pelo Programa VAI para desenvolver um conjunto de ações culturais intitulado "Ponto de Partida: Um resgate da memória da Ascensão ao morro", que reverbera em um espetáculo de criação coletiva chamado "Da janela do Céu Vejo o Outro Lado do Morro". Neste projeto, afinamos relações com líderes comunitários locais no intento de discutir a história do bairro e as relações entre as ocupações que acabavam de chegar no território. Esse embate propiciou um encontro entre membros de grupos distintos de moradia e nos ajudou a problematizar as questões de inacessibilidade do CEU Paz pela comunidade do entorno.
Em 2015, o Coletivo é contemplado pelo edital Conexões de Teatro Jovem, promovido pela Cultura Inglesa e dá início ao processo de montagem do espetáculo “Meu Adulto Favorito?”, espetáculo que expõem situações delicadas vividas por jovens adolescentes periféricos e sua relação com o mundo adulto. O espetáculo teve estreia no Teatro da Cultura Inglesa e fez temporada no CEU Pêra Marmelo e no Casarão do Belvedere.
